Um disco, um tênis e 47 anos de uma história

Um disco, um tênis e 47 anos de uma história

Por RODRIGO DHAKOR

Por Rodrigo Dhakor

Salomão Borges Filho nasceu em Belo Horizonte, no bairro de Santa Tereza, em 10 de janeiro de 1952. É o filho do meio dos 11 filhos de Salomão Magalhães Borges, jornalista autodidata, e Maria Fragoso Borges, professora primária. Ganhou o apelido “Lô” na infância. Aos 10 anos, mudou-se para o Edifício Levy, no Centro de Belo Horizonte, onde aproximou-se do violão e fez suas primeiras composições. Nessa época, conheceu duas pessoas que se tornariam grandes parceiros e formadores do Clube da Esquina: Beto Guedes e Milton Nascimento

Ao longo de todo uma história da música brasileira, gravou o mítico LP duplo "Clube da Esquina" ao lado de Milton Nascimento e Beto Guedes no ano de 1972, quando também aos 20 anos de idade, Lô Borges foi contratado para fazer um novo disco, dessa vez sozinho e dentro de um prazo muito curto. Segundo o autor foi necessário um período intenso de produção e criação, no entanto o resultado frustou as expectativas comerciais da gravadora que por fim não investiu na sua divulgação. Assim nasceu o cultuado "Disco do Tênis".

Intitulado "Lô Borges", ou mais informalmente conhecido como "o disco do tênis" pela capa que expôs o surrado par de Adidas branco do artista, o álbum foi consequência do sucesso do gregário álbum assinado com Milton. Mas o tênis de Lô pavimentou o próprio caminho musical do artista de ideologia hippie que estava morando na cidade do Rio de Janeiro desde 1971. Caminho até mais inovador e experimental do que o álbum anterior.

(Foto EMI Music Brasil)

Gravado na pressão, com a cobrança da gravadora EMI-Odeon por um disco solo do artista e com o repertório inteiramente autoral sendo composto na medida em que ia sendo gravado no estúdio, o álbum Lô Borges levou adiante a indefinível fusão de pop, MPB, rock e jazz do Clube da Esquina com dose adicional de psicodelia e um toque de música nordestina.

Segundo depoimento do próprio Lô Borges, a pressão foi tanta que, terminado o álbum, ele chutou o balde e passou anos longe da música. Somente em 2017, ele resolveu se apresentar com o repertório contido na obra.

A decisão de abandonar o meio artístico chegara, por isso em vez de seu rosto, há o par de tênis na capa. "A ideia do tênis da capa é minha. Quando o disco ficou pronto e fomos discutir a capa, eu disse que estava saindo da indústria fonográfica e queria colocar o tênis pra simbolizar isso. Não ter colocado a minha cara e sim um tênis, que era eu dizendo que ia pegar a estrada: eu vou pegar a estrada e tô saindo do Rio de Janeiro, tô saindo do showbusiness, tô saindo do circuito. Eu tenho vinte anos apenas e não quero essa obrigação de gravar um disco a cada seis meses. Até hoje eu autografo o disco do tênis dizendo "com um pé na estrada".

“É isso que o tênis quer dizer na capa. Simbolizava que eu estava largando a música naquele momento. Eu não queria sobreviver de música, eu queria que a música sobrevivesse em mim”, conta Lô.

O autor da capa, fotógrafo e artista plástico foi Carlos Filho (1950-2019), mais conhecido como Cafi. Entre as décadas de 1970 e 1990, Cafi se especializou em fotografar capas de disco. A primeira foi para Marlene, a convite de Hermínio Bello de Carvalho. Cafi assinou a “vitrine” de “É a maior” (1970) com Carlos Filho. É dele a icônica capa do disco "Clube da esquina" (1972), de Milton e Lô Borges. Ainda para Milton Nascimento, fez as capas de "Milagre dos Peixes" (1973), "Minas" (1975) "Geraes" (1976). 

Um de seus maiores marco é a capa do disco que ficou conhecido como "o disco do tênis". Sobre ela, Cafi contava que chegou a levar uma bronca do diretor artístico da gravadora Odeon.

"Levei um pito do genial Milton Moreira pois já tinha feito (a capa do) 'Clube da esquina', que não tinha letreiro (o nome) dos artistas (...) Daí cheguei com os tênis e ele disse que eu era maluco, porque além de tudo eram tênis velhos. Hoje é a capa do disco do tênis".
"Eu lembro, por exemplo, do Lô, que estava todo chateado, e eu fiz aquela capa com ele dos dois tênis, porque ele tinha dois tênis velhos. A gente não conseguia achar uma foto do Lô, então disse assim: “Por que não vamos fazer com o tênis?”. Aí fizemos com o tênis, não sei se foi uma ideia do Marcinho na época, foi uma coisa que surgiu. Dessa capa, até hoje, nego vem me falar em Londres; neguinho adora essa capa. A capa ficou muito atrelada a um tipo de sentimento, não era uma embalagem de um sabonete, era uma embalagem de um outro conteúdo estético, então ela tomou coisas assim."

 

Mesmo sem ter gerado um sucesso para o cancioneiro de Lô, que somente retomaria a carreira fonográfica em 1979 com o álbum solo "A via láctea", o "disco do tênis" vem sendo cultuado em nichos ao longo desses 47 anos por ter dado passo libertário na trajetória musical do cantor e compositor.

E aí, sabia dessa?