Hackers trabalham em tecnologias para combater a violência doméstica

Hackers trabalham em tecnologias para combater a violência doméstica

Por RODRIGO DHAKOR

Em Israel, um grupo de hackers se juntou para criar uma tecnologia de aplicativos móveis que permitem ajudar pessoas que vivem em contextos de violência doméstica, mesmo antes desta acontecer.

Em Outubro de 2019, o assassinato de Michal Sela chocou os israelitas. O caso da mulher que foi esfaqueada pelo marido em frente ao seu filho, despertou a vontade de várias pessoas em ajudar mulheres que passam por situações de violência.

A tragédia de Sela lançou uma questão para uma ideia da sua irmã, Lili Ben Ami, e deu origem ao Fórum Michal Sela, uma organização sem fins lucrativos que tinha como objetivo usar a tecnologia para acabar com a violência doméstica.

Ami começou por organizar o Safe Home Hackathon, evento focado no desenvolvimento de ferramentas e soluções para detectar, combater e prevenir a violência doméstica e o abuso do parceiro, desde os sinais iniciais até ao momento em que a vítima se sente em risco de vida.

De acordo com informações, o evento contou com o apoio de gigantes da tecnologia como: Facebook, Microsoft ou Salesforce. 1800 hackers israelitas se reuniram durante três dias em busca de aplicativos, plataformas e serviços para ajudar a combater a violência doméstica. 

Esta é a primeira vez que questões de violência doméstica e assassinato de mulheres recebem um enfoque tecnológico, em Israel. Ben Ami garante que o problema merece ser observado a fundo e explica que "o nosso objetivo é levar este problema mais além, para lá das soluções primitivas".

(Foto Getty Images)

Ainda assim, identificar sinais e interromper a violência doméstica recorrendo a tecnologia é mais complicado do que parece. Por um lado, a proliferação de smartphones e redes sociais tornou mais fácil o fato dos abusadores isolar, controlar e vigiar as suas vítimas.

Por outro lado, a tecnologia criada fornece às vítimas de violência doméstica ferramentas importantes que permitem a conexão com a família e com as autoridades. Desde salas de conversa a aplicativos como o Circle of 6, que, com apenas dois toques no ecrã, alerta um grupo de amigos e familiares que o usuário precisa de ajuda, as opções de ajuda são vastas.

Diana Freed, investigadora de segurança digital e privacidade da Cornell, vê o app como um dilema. Apesar do botão de alerta estar escondido no smartphone da vítima, está sempre iminente "o medo de que o agressor possa descobrir".

Apesar das dificuldades, Ami acredita que a tecnologia deve ser aproveitada para ajudar pois também pode garantir segurança e proteção. Podemos transformar a arma numa força protetora. 

Os hackers que criaram a tecnologia de apoio às vítimas dividiram em três segmentos diferentes o suporte que este pode fornecer às vítimas de violência doméstica.

O primeiro segmento tem como foco a prevenção, onde há acesso a bancos de dados nacionais para pesquisar sinais de abuso sistémico.

O outro segmento é mais direcionado para vítimas que se sentem em risco de vida. O app Stay Tuned usa uma tecnologia de reconhecimento de voz e inteligência artificial que grava ruídos alarmantes, emitindo de imediato uma notificação para a polícia, e também para uma lista de contatos pré-definidos pela vítima.

O último segmento concentra-se em aplicativos que usam tecnologia para reconhecer eventos que são tidos como sinais de alerta de potencial violência futura.

Por exemplo o Aware, um "detetor de violência" para smartphone, adota essa abordagem quando um parceiro ciumento apaga todos os amigos do Facebook da vítima. Desta forma os administradores escolhidos pelo proprietário do telefone recebem uma mensagem de texto alertando para o risco e fornecendo conselhos sobre as melhores maneiras de lidar com o problema.

Uma questão que surge é o fato de nem todas as pessoas terem um smartphone ou acesso à Internet de forma fácil e confiável.

Para Michal Gera Margaliot, diretora executiva da Rede de Mulheres de Israel, a tecnologia é uma "solução localizada". A defensora dos direitos das mulheres considera que "Infelizmente, a violência contra as mulheres não é um jogo de Tetris. São processos elaborados e de longo prazo que também precisam acontecer ao nível governamental".

Margaliot menciona um programa governamental de combate à violência doméstica, que foi autorizado em 2017, mas até agora ainda não foi implementado. Contudo, o anúncio dos vencedores da Hackathon ocorreu na residência oficial de Rubi Rivlin, presidente de Israel. Para a israelita isso mostrou que a violência doméstica é uma questão fundamental e que é importante e significativa.

A própria Ben Ami admite que as necessidades específicas da comunidade em relação ao uso da tecnologia, bem como a relação com os órgãos governamentais que fiscalizam o assunto, devem ser intensificadas. "Há populações em que a tecnologia terá que se adaptar aos desafios", diz ela.

Há, mas você deve estar se perguntando, mas isso é em Israel não é?

"A violência doméstica é uma linguagem internacional", afirma Ami, que planeja expandir as atividades do Fórum para além de seu país.

Uma convenção internacional com o objetivo de divulgar a tecnologia está marcada em Israel em Outubro, e vai contar com presença do presidente do país. Gil’ad Ardan, o recém-nomeado embaixador de Israel nas Nações Unidas, tem também mantido contato com Ben Ami, mostrando interesse em organizar um evento com representantes da ONU.

(Foto Unsplash)

Atualmente no Brasil, além das tecnologias e inovações totalmente voltadas para o combate da violência contra a mulher, algumas empresas estão tomando a iniciativa de colaborar com esta causa por meio de funcionalidades dentro de seus próprios aplicativos. Temos como exemplo as empresas Rappi e Magazine Luiza.

O aplicativo de entregas Rappi, junto com o projeto Justiceira, criado pela Gabriela Manssur, especialista no combate à violência contra a mulher, lançou um botão de socorro, chamado "SOS Justiceiras". Esse tem como finalidade fazer com que mulheres em situação de vulnerabilidade possam acioná-lo para receber apoio de profissionais. Ao acionar o botão, a vítima é direcionada para um formulário simples de triagem para que os profissionais entendam a situação e, em seguida, uma das voluntárias do projeto entrará em contato e conversará com a mulher.

A rede Magazine Luiza, ao concluir que 99% das mulheres brasileiras não sabiam como denunciar os crimes, no intuito de ajudar e aproveitando o Dia internacional da Mulher no ano de 2019, anunciou um novo botão em seu aplicativo. Este tem como finalidade denunciar casos de violência contra a mulher. Ao clicar, a mulher terá a opção de ligar para o 180 Central de Atendimento à Mulher, também para o 190 em casos de emergência ou abrir um chat para o atendimento via Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Evidências nos mostram que, a Lei, por si só, não resolve o problema. Tornozeleiras eletrônicas, botões de pânico, SOS mulher e até aplicativos celulares podem contribuir com a diminuição de mortes de mulheres inocentes por todo o Brasil, mas, mesmo assim, pouco se faz sobre isso. No meio acadêmico da tecnologia, grandes falhas e problemas são solucionados, grandes ideias e inovações são criadas, mas, pouco se usa a informação para resolver problemas de uma realidade que está "bem embaixo do nosso nariz".

Diante das pesquisas e análises, entende-se que os dispositivos e aplicativos apresentados nesse artigo tem como objetivo fazer com que as vítimas reconheçam que possuem recursos para a denúncia, aumentando seu sentimento de segurança, evitando feminicídios e contribuindo para a prisão em flagrante dos agressores.

Portanto, a tecnologia e inovação, sendo utilizadas com sabedoria e propósito, tem o poder de salvar a realidade e a vida de muitas mulheres que sofrem constantemente com o fenômeno da violência. Estamos em uma guerra constante, ignorada por muitos, tenha empatia e comece a mudança dentro de você, seja implantando novas ideias, seja implementando ideias já existentes.