Palantir, a obscura gigante da tecnologia

Palantir, a obscura gigante da tecnologia

Por RODRIGO DHAKOR

Você nunca deve ter ouvido falar da Palantir Technologies Inc, não é mesmo?  Ela é a obscura empresa de software e serviços de informática americana, especializada em serviços para o governo dos Estados Unidos e, desde 2010, para clientes da área financeira.

Com a oferta de software e, igualmente importante, equipes de engenheiros que personalizam esses programas, a Palantir ajuda as organizações a interpretar vastas quantidades de dados. Ela ajuda a reunir informações de diferentes fontes, como o tráfego da internet e registros de celular, e analisa essas informações. Essas peças aparentemente díspares são reunidas em um quadro que faça sentido para seus usuários.

Mas podem ser necessários muitos engenheiros e bastante tempo para fazer com que a tecnologia da Palantir funcione como os clientes esperam. E essa mistura de tecnologia e força de trabalho humana confunde Wall Street no momento de avaliar o valor de mercado da empresa. A Palantir é uma empresa de software, um setor tradicionalmente rentável, ou é uma consultoria, menos lucrativa? Ou seriam ambas as coisas? "Para investidores, a empresa é como um cubo mágico", diz Daniel Ives, da consultoria Wedbush Securities.

(Foto Getty Images)

Criada em 2004, a Palantir diz que a sua tecnologia é ideal para rastrear terroristas, reproduzindo um boato de que teria ajudado a localizar Osama Bin Laden. Financiada em parte pela In-Q-Tel, braço investidor da Agência de Inteligência americana, a empresa desenvolveu sua principal tecnologia de software, batizada de Gotham, pensando em usá-la na CIA.

As tecnologias da Palantir também são capazes de localizar imigrantes vivendo nos Estados Unidos ilegalmente, a Agência de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) tem usado o recurso sob ordens da Casa Branca, segundo documentos federais. Nos últimos anos, a Palantir tentou crescer no setor privado, atendendo a grandes empresas como Airbus, Ferrari e o banco JPMorgan Chase.

A empresa de 2,5 mil funcionários detém uma fatia de 3% de um mercado de análise de dados, que hoje movimenta US$ 25 bilhões, segundo a consultoria PitchBook. A Palantir captou mais de US$ 3 bilhões em financiamento, investidores calculam que seu valor de mercado seja de US$ 20 bilhões, mas a empresa não lucrou desde a sua fundação. Em 2019, a receita da Palantir foi de US$ 742,5 milhões, alta de quase 25% em relação ao ano anterior. Mas a empresa perdeu mais de US$ 579 milhões, prejuízo comparável ao de 2018, segundo documentos divulgados recentemente.

O governo americano iniciou um projeto chamado Project Maven para reformular a tecnologia militar do país por meio da inteligência artificial (IA). Para isso, valeu-se da experiência de mais de 20 empresas, incluindo a Palantir.

(Foto Getty Images)

No Project Maven, a Palantir ofereceu um software que lida com um vasto volume de imagens de vídeo feitas por drones operados pelo exército e pela Força Aérea. Os especialistas em IA usam esse software para desenvolver sistemas capazes de identificar automaticamente edifícios, veículos e pessoas.

O The New York Times obteve documentos internos do governo que acusam a liderança do Maven de burlar as regras do Pentágono e favorecer a startup, cujos funcionários desenvolveram relações de incomum proximidade com seus parceiros dentro das Forças Armadas. Os documentos mostram a considerável influência da empresa dentro do governo.

O Departamento de Defesa deu início a uma investigação formal do Project Maven, segundo duas fontes próximas ao assunto que não têm autorização para comentá-lo publicamente. O resultado ainda é desconhecido. Um porta-voz do departamento de defesa para o Project Maven não quis se pronunciar.

O modelo de negócio da Palantir nem sempre se ajusta aos contratos militares. Embora ofereça uma mistura de software e consultoria, todos os custos são incluídos em uma única licença de software. Em outras palavras, o trabalho de consultoria é incorporado às taxas de software. Tipicamente, o governo paga por trabalhos de consultoria independentemente das licenças de software.

Isso significa que os clientes pagam por uma tecnologia que ainda não foi desenvolvida. Jeff Peters, diretor da Esri, empreiteira que presta serviços ao governo, diz: "O modelo de negócios da Palantir é diferente da maioria das empresas de tecnologia".

Então é de ciência que existem duas divisões dentro da empresa. A Palantir Gotham que atua, principalmente, para instituições governamentais e órgãos de segurança pública, combinando informações para revelar padrões não detectados e identificar relações entre conjuntos que são formados por postagens em mídias sociais, endereços, placas de veículos, relacionamentos e por aí vai, colocando tudo em gráficos simplificados.

E a Palantir Foundry, voltada a clientes variados, como indústrias farmacêuticas, automobilísticas e aéreas, a exemplo da Airbus. Trata-se, na verdade, de uma filial para reduzir custos associados à Gotham, uma vez que diminui a necessidade de uma ampla equipe de engenheiros localizados.

(Alex Karp - Foto Los Angeles Times)

Alex Karp, cofundador e CEO, é o responsável pela empresa e já expressou claramente sua crença quanto à necessidade de empresas do Vale do Silício colaborarem com o poder público. Ele é graduado pela Stanford Law School, tendo assumido a companhia pouco tempo após sua entrada e fundado, antes, a instituição de gerenciamento de dinheiro Caedmon Group.

Ele não concorda muito com a abertura de capital da Palandir. Em sua fala durante o First Data Cyber Security Summit de 2014, o executivo foi enfático ao afirmar que companhias que optam por esse caminho perdem competitividade, devido à diferença entre engenheiros "criativos e malucos", que visam solucionar problemas, e Wall Street, segundo ele, só quer saber de lucros.

No momento isso é tudo o que se sabe sobre a empresa que, pelo jeito, é capaz de mudar os rumos de como experienciamos o tratamento de dados.