Às vésperas da Copa do Mundo FIFA 2026, a Nike se vê diante de um cenário que mistura colaborações emblemáticas, ambição de marketing e vulnerabilidade jurídica. A tentativa de resgatar a icônica linha “Total 90”, símbolo marcante do futebol dos anos 2000, fazia parte de um plano estratégico baseado em nostalgia, identidade esportiva e conexão emocional com o público. No entanto, a expiração do registro da marca e a disputa judicial com a Total90 LLC transformaram esse ativo em um ponto de incerteza justamente no momento mais crítico do calendário esportivo.
O problema não foi apenas jurídico, mas estratégico. A Copa do Mundo representa uma janela única de visibilidade global, na qual marcas disputam atenção em escala massiva. Ao enfrentar um litígio sobre o uso de um dos seus principais símbolos históricos, a Nike comprometeu a previsibilidade de sua campanha. Em vez de operar com uma narrativa clara e centralizada, a empresa passou a lidar com riscos de restrição de uso, ajustes de última hora e possíveis impactos reputacionais.
Diante desse cenário, a resposta da Nike foi rápida e reveladora: diversificar. Em vez de depender exclusivamente da força da Total 90, a empresa intensificou sua atuação por meio de colaborações no universo do futebol, expandindo sua presença para além do campo e aproximando-se da cultura urbana, da moda e do lifestyle.

(Foto: Nike)
Parcerias com marcas e criadores ganharam protagonismo, conectando seleções nacionais a nomes relevantes do streetwear e do design global. Essa abordagem transforma produtos esportivos em peças culturais, ampliando o alcance da marca e dialogando com novos públicos. Ao mesmo tempo, releituras de chuteiras clássicas e coleções inspiradas no passado reforçam o apelo nostálgico, mas agora diluído em múltiplos projetos, e não concentrado em um único ativo.
Além disso, a Nike mantém sua base sólida no futebol por meio de contratos com seleções e presença institucional no esporte, garantindo visibilidade dentro de campo independentemente de linhas específicas de produtos. Essa combinação entre performance esportiva e expressão cultural mostra uma mudança importante: o futebol, para a marca, deixou de ser apenas competição e passou a ser também linguagem e estilo.
A Nike acertou ao reconhecer o valor simbólico da Total 90, mas falhou ao não garantir sua proteção contínua. A solução encontrada, em investir em múltiplas colaborações, não apenas mitiga os danos, como reposiciona a empresa de forma mais ampla e resiliente.
Assim, enquanto a bola ainda nem rolou na Copa, a disputa mais importante para a Nike já começou fora de campo e está entre a força de sua história e a necessidade de reinventar sua estratégia diante de riscos que poderiam ter sido evitados.