O Universo Criativo do Chefe de Quebrada

O Universo Criativo do Chefe de Quebrada

Em um cenário onde moda, gastronomia e cultura de rua se cruzam cada vez mais, poucos criadores transitam entre esses universos com tanta naturalidade quanto Natã Oliveira. Conhecido como Chefe de Quebrada, o confeiteiro paulistano transformou seu trabalho em algo que vai além da cozinha, criando uma linguagem própria que mistura estética, identidade e experiência.

Foi justamente essa abordagem que colocou seu nome no radar de marcas, criadores e comunidades ligadas ao streetwear. Seus brownies estampados e bolos inspirados em sneakers se tornaram parte de ativações, lançamentos e eventos que enxergam na criatividade uma ferramenta tão importante quanto o próprio produto. Mais do que reproduzir objetos ou logotipos, Natã desenvolveu uma forma de traduzir referências culturais para dentro da confeitaria.

Ao longo dos últimos anos, seu trabalho passou a dialogar diretamente com temas que definem boa parte da cultura contemporânea: pertencimento, construção de marca, autenticidade e o valor das narrativas pessoais. Em uma época em que consumidores buscam conexões mais genuínas, sua trajetória mostra como identidade e criatividade podem caminhar juntas sem perder força ou significado.

Para entender melhor esse percurso, conversamos com Natã de Oliveira sobre suas referências, a relação entre gastronomia e moda, os aprendizados adquiridos ao longo da trajetória e sua visão sobre os movimentos que vêm transformando a cultura de rua nos últimos anos.

Seu trabalho hoje circula entre gastronomia, moda, arte e cultura de rua. Em qual desses universos você sente que realmente pertence?

- Natã: Vejo o Natã em todos eles. Particularmente, não sou alguém que está entre caminhos. Cada área possui um pouco de quem eu sou e do que gosto. Acredito que a maneira mais funcional de realizar projetos autorais acontece quando me expando para tudo o que conheço, gosto e acredito. Meu caminho se divide em diferentes áreas, mas a conexão entre todas elas acontece através da arte. É por meio dela que minhas leituras pessoais ganham forma e significado.

- Em que momento você percebeu que seus doces poderiam se tornar uma linguagem criativa e não apenas um produto para vender?

Diferente de muitas pessoas, eu sempre associei o visual a uma forma de pensar um tanto incomum: “qual seria o gosto disso?”.

Talvez por gostar tanto de algumas coisas, eu não consiga deixar de imaginar a explosão de sabores que seria reinterpretar um Air Force, uma capa dos Racionais, com seu possível sabor denso e amargo, ou até uma obra do Basquiat traduzida em diferentes ganaches, recheios, massas e texturas.

A partir disso, comecei a viver meu próprio universo. E, dessa forma, muitas pessoas chegaram ao mesmo pensamento: “Caramba, nunca parei para pensar nisso” ou “Qual seria o sabor das minhas lembranças, dos meus objetos mais importantes ou das minhas emoções?”.

Eu busco dar sabor à cultura, aos pensamentos, às emoções e aos sentimentos. Dentro da Geração Z, isso acaba sendo entendido como uma experiência sensorial. Então foi uma junção de quem eu realmente sou, da forma como penso, do empreendedorismo e das técnicas de venda.

- Sneakers aparecem com frequência no seu trabalho. O que existe na cultura dos tênis que conversa tanto com a sua trajetória?

Vim de uma realidade em que era mais comum ganhar roupas e tênis de brechó ou de garimpo do que comprar um par novo. A sensação de abrir uma caixa e sentir aquele cheiro característico de um tênis recém-lançado era algo distante da minha realidade. Esse foi um dos primeiros gatilhos que tive.

No meu último trabalho como estagiário na rede Ragazzo, acabei sendo demitido e recebi algo em torno de R$ 500 ou R$ 600. No dia seguinte, fui até a Kings, na Galeria do Rock, porque queria muito um Air Force 1 de couro autêntico. Ali entendi que, se eu comprasse aquele tênis, no dia seguinte continuaria na mesma situação financeira. Foi então que fiz uma promessa para mim mesmo: eu abriria meu CNPJ e construiria algo que me permitisse conquistar aquilo sem precisar escolher entre um sonho e a minha sobrevivência.

Naquele momento surgiu uma curiosidade, uma inquietação que nunca consegui explicar completamente em palavras. Foi como se eu tivesse encontrado um propósito. Não para o mercado, mas para o Natã. Criar um tênis de chocolate representava transformar em arte uma carência financeira, estética e social que fazia parte das minhas experiências. Levei dois anos. Investi entre R$ 4 mil e R$ 7 mil em erros, silicones, chocolates, massas, recheios, embalagens e tudo o que fosse necessário para desenvolver aquele projeto.

Acredito que nunca desisti porque, pela primeira vez, um adolescente tímido falava com total convicção sobre uma criação que só ele conseguia enxergar em três dimensões dentro da própria mente.

Para mim, sorte é estar preparado quando a oportunidade bate à porta. Por alinhamentos da vida, terminei esse tênis poucos meses antes de a silhueta Air Force completar 40 anos, justamente quando o mercado sneakerhead estava em alta.

Foi aí que aconteceu a explosão do meu trabalho. De um lado, um item de desejo para colecionadores apaixonados por tênis. Do outro, a realização de um adolescente que não teve acesso ao modelo que via nos clipes e referências culturais que admirava.

- Você já trabalhou com marcas como Nike, Puma, Converse, New balance, Asics e Lacoste. O que essas experiências te ensinaram sobre criatividade e mercado?

A Nike possui um lema que me movia muito antes de qualquer parceria: “Just Do It”. Apenas faça. Independentemente dos julgamentos, dos olhares ou das críticas, apenas faça. Essa filosofia me acompanhou durante a adolescência e ajudou a construir minha maneira de criar. As outras marcas me ensinaram que nunca bastaria ter um produto diferente. Eu precisava entender de vendas, comunicação, marketing e branding.

Eu não poderia ser apenas um confeiteiro que fez um bolo. Precisava construir uma marca forte, capaz de criar reconhecimento e desejo em torno daquilo que produzia. Entendi que não precisava de dezenas de acertos. Precisava de um único acerto extremamente bem posicionado, validado e executado.

Eu não reinventei o chocolate. Mantive 80% da familiaridade e acrescentei 20% de criatividade. E eu sabia que não era uma criatividade genérica, porque era tudo o que existia dentro de mim sendo entregue à confeitaria.

- O nome “Chefe de Quebrada” continua carregando o mesmo significado para você hoje ou ganhou novos sentidos ao longo do tempo?

Chefe de Quebrada nasceu quase como uma provocação. Muitas pessoas, inclusive familiares, me zoavam por não ter formação acadêmica e utilizar o termo “chef” na bio do Instagram.

Naquela época, meu nome fantasia no CNPJ era “Lá Prince”, porque meu apelido no bairro era “Prince da Vila”. Nasci na Vila Guarani, no Jabaquara, e um morador de rua chamado Eduardo, conhecido como B, me chamava assim. Eu costumava ajudá-lo comprando marmitas, roupas e malas de viagem.

O termo “de quebrada” veio daquela linguagem simples e espontânea do cotidiano. Foi dessa mistura que nasceu uma personalidade. Um menino sem faculdade, sem formações tradicionais, que seria conhecido como Chefe de Quebrada. Hoje sinto que esse nome virou uma assinatura. Uma referência ousada dentro de um mercado elitizado. Algo cuja existência não pode ser ignorada.

- Muitas pessoas enxergam seu trabalho como uma mistura de confeitaria e design. Você se considera mais cozinheiro, artista ou empreendedor?

Me considero um artista que precisa vender para viver. E disso nasce uma conexão entre três pilares fundamentais da minha trajetória: arte, empreendedorismo e confeitaria.

- A cultura de rua vive um momento de transformação constante. O que você acha que está mudando dentro desse cenário atualmente?

Ver a inteligência artificial sendo incorporada em diferentes nichos é algo muito interessante. Assim como os celulares se tornaram uma extensão do nosso corpo, quase como algo indispensável no dia a dia, acredito que a tecnologia está se tornando parte natural do processo criativo das novas gerações.

Não vejo a tecnologia como substituição. Para mim, ela é apenas mais uma ferramenta para ampliar repertórios e possibilidades.

- Quando você olha para os próximos anos, qual é a maior ambição para o Chefe de Quebrada?

Quero desenvolver equipamentos que hoje considero essenciais para o estilo de confeitaria que faço e comercializá-los para ampliar as possibilidades de criação de outras pessoas. Também penso em compartilhar o que sei através de aulas, cursos e mentorias. Hoje não compartilho minhas técnicas gratuitamente porque paguei um preço muito alto para desenvolvê-las. Um preço que envolveu minha saúde e também o sacrifício de parte da minha infância e adolescência.

Neste momento, estou aproveitando aquilo que consegui dominar. Não para impressionar quem conheceu meu trabalho por um vídeo nas redes sociais, mas para honrar a criança que precisou amadurecer cedo para construir sua própria renda. Hoje quero viver, criar e brincar com aquilo que faço.

Mas a ambição de ensinar é real. A vontade de compartilhar conhecimento é real. A vontade de criar produtos que transformem cozinhas pelo Brasil e pelo mundo também é real. Acredito no meu método de ensino. Acredito em um futuro onde confeitarias pequenas, até mesmo MEIs, consigam desenvolver designs de doces capazes de competir com grandes marcas, criando produtos mais autorais, mais criativos e com maior valor percebido.

No mais, quero me tornar cada vez mais um diretor criativo e consolidar definitivamente o meu trabalho como arte.

 

(Fotos: @pedronekrasius / @chefedequebrada)