Tudo Sobre A Primeira Experiência Digital Do Paris Fashion Week

Tudo Sobre A Primeira Experiência Digital Do Paris Fashion Week

Por Matheus Castro

Você provavelmente já deve ter ouvido falar por aqui sobre a moda pós-pandemia ou como a indústria está tentando se adaptar às novas dinâmicas e limitações diante da Covid-19. Pela primeira vez, pudemos sentir o gostinho do novo normal dentro da moda com o Paris Fashion Week Digital. E adivinha? Ele é lindo, criativo e excitante! Foram cinco dias de apresentações totalmente online. Marcas e seus diretores criativos ficaram livres para escolher o formato mais adequado para mostrar suas coleções de primavera / verão 2021. Muitos optaram por vídeos conceituais ou apenas pequenos teasers sem muitos detalhes sobre as peças, deixando as fotos falarem por si só. O resultado foi a prova viva de que podemos estar vivendo um dos momentos mais criativos, democráticos e sustentáveis da indústria.

É claro, ainda haverá desfiles presenciais, visto que a indústria possui certa vaidade tradicionalista entranhada em suas raízes. Além disso, nada se compara a ver e sentir uma peça de roupa ao vivo, seus detalhes, caimentos e nuances. Mas os recentes desfiles masculinos online mostraram que talvez estes shows não sejam mais os mesmos. Por um lado, este novo sistema coloca todas as marcas em níveis iguais e potencializam seus campos de atuação. Todas ali terão de apresentar um vídeo criativo. É nadar ou se afogar. 

Walter van Beirendonck, uma das lendas do famoso grupo de designers belgas que revolucionou a moda nos anos 90 The Antwerp Six, trouxe uma coleção emocionante e cinematografia impecável com bonecos de silicone super maquiados em uma vibe meio andrógina da cultura de rave. Intitulada "Mirrors", Walter foi buscar inspiração no "Thêatré de La Mode", exposição que aconteceu pós-segunda Guerra Mundial no Louvre, a fim de restabelecer a indústria da moda. Grandes nomes da alta-costura francesa reproduziram suas criações em escalas reduzidas, deixando Paris maravilhada e arrecadando grande quantidade de dinheiro e reafirmando o luxo parisiense. Nesta coleção de primavera / verão 2021, Beirendonck incorpora em suas peças espelhos de diferentes tamanhos e formatos que reforçam as silhuetas e "protegem de forças malignas, simbolizam a unidade humana e representam a volta da beleza". E que volta!

 

Vídeos não são apenas mais baratos do que um desfile tradicional, eles oferecem novas possibilidades em termos de peças, modelos, trilha sonora, cinematografia e a todos os colaboradores que fazem o show acontecer nos bastidores. E se uma marca surgisse com a ideia de transformar sua coleção em apenas um grande desfile contínuo, que vai parando de cidade em cidade, país em país, como se fosse uma banda em tour mundial? É a nova abordagem que a Louis Vuitton pretende incorporar para os próximos meses, segundo o diretor artístico Virgil Abloh. Nesta semana de Fashion Week "Phygital", termo criado para ilustrar a nova dinâmica entre físico e digital, a maison apresentou sua coleção através de um vídeo animado intitulado "Zoooom With Friends", onde modelos vestidos com macacões LV carregam contêineres de mercadorias em um barco pronto para deixar Paris. Dentro, criaturas animadas com olhos de monograma da marca, loucas e vibrantes, embarcam para uma tour pelo mundo. Virgil, se você estiver lendo isso, você está no caminho certo. 

 

 

Nesta semana, o grande nome foi sem dúvida Jonathan Anderson. Diretor criativo da J.W. Anderson e LOEWE, o designer britânico apresentou coleções inspiradoras que exaltam o trabalho manual do artesanato moderno. Em ambas as marcas, Jonathan optou por uma abordagem mais doce e original, misturando o tátil com o digital. No lugar de vídeos conceituais, ele enviou uma caixa para editores, influenciadores e amigos da marca com a coleção inteira. A ideia do "Show in the box" e "faça você mesmo" foi transmitida com graça e inteligência artesanal. Uma maneira genuína de conexão em tempos de lockdown.

 

Tanto na J.W. Anderson quanto na LOEWE, cada peça conta uma narrativa, uma história muito maior: a do artesanato moderno. Exaltam e refletem técnicas manuais e se atentam aos mínimos detalhes de um trabalho artesanal. Outro ponto que vale ressaltar é a transparência do designer em se dispor a compartilhar com o público suas inspirações, ideias e motivações de cada roupa, cada detalhe, cada história por trás e até mesmo como reproduzir o seus designs, após um cardigan da J.W. Anderson usado por Harry Styles viralizar no Tik Tok e usuários tentarem recriá-lo em casa.

 

 

Informação hoje em dia na moda é uma das coisas mais difíceis de se obter, querer saber mais sobre o desfile, sobre como a cabeça do designer funcionou durante o processo criativo. Casas guardam seus "segredos" a sete-chaves. Enquanto isso, Jonathan Anderson lidera e cumpre um papel importante neste processo de democratização de conhecimento. O mesmo vale para Kris Van Assche, que teve abordagem parecida de bastidores com a Berluti. É disto que precisamos. Foi simplesmente lindo.

 

Ao final do PFW Digital, uma ideia ficou clara: designers perceberam que o objetivo não é mais surgir com novos estilos para a próxima temporada, onde apenas alguns terão a possibilidade de digerir. Mas, sim, vender o universo da marca através de conteúdo. Muitas têm feito isto ao longo dos anos, mas torná-lo o evento principal faz tudo parecer muito mais moderno e menos exaustivo. Pense nas possibilidades de colaboradores que designers de moda possam vir a trabalhar lado a lado em suas coleções digitais: cineastas, músicos, artistas, maquiadores, estilistas de cabelo e mais. Assim como Issey Miyake escreveu ao final de sua coleção, "por um futuro brilhante, saudável e cheio de esperança".