Ventilação como forma de estética

Ventilação como forma de estética

Existe uma estética ganhando espaço no running, camisetas marcadas por furos, áreas vazadas, mesh e diferentes níveis de transparência. A intervenção aparece tanto em peças desenvolvidas pelas próprias marcas quanto em camisetas modificadas pelos corredores. Mais do que uma solução funcional, a ventilação passou a construir uma imagem e essa imagem começa a influenciar a maneira como as próprias pessoas se vestem para correr.

Durante muito tempo, recursos de ventilação eram incorporados à roupa de performance de maneira quase invisível. A tecnologia estava no tecido, na trama ou na construção da peça, mas não necessariamente aparecia como parte importante do seu desenho. Agora, essa lógica mudou. Perfurações, estruturas abertas e canais de ar passaram a ocupar a superfície das roupas e a funcionar também como elementos gráficos. A ventilação deixou de ser apenas uma característica do material para se tornar parte da estética.

A Nike ACG talvez seja um dos exemplos mais claros dessa mudança. A Radical AirFlow transforma a circulação de ar em parte da própria construção da peça, com uma estrutura de tecido aberta e canais que direcionam o fluxo pelo corpo. A SATISFY segue outra interpretação com a MothTech, usando perfurações feitas a laser e distribuídas de acordo com as áreas de maior aquecimento. São soluções diferentes, mas que chegam a um ponto semelhante: aquilo que melhora a relação entre corpo e roupa também passa a definir sua aparência.

(Radical AirFlow - Foto: Nike)

(MothTech - Fotos: SATISFY / Getty Images)

Essa linguagem aparece de outras formas no mercado de performance. Mesh, tecidos ultraleves, tramas abertas, painéis perfurados e diferentes sistemas de ventilação fazem com que a roupa revele cada vez mais sua própria construção. O que antes poderia ficar escondido dentro da engenharia do produto agora aparece como textura, desenho, transparência e contraste.

É nesse contexto que os furos feitos manualmente nas camisetas de corrida ganham uma leitura diferente. O gesto de cortar ou perfurar uma peça não surge isoladamente, ele dialoga com uma estética que já está sendo construída pelas próprias marcas. Quando o corredor reproduz esse tipo de visual, ele não está apenas alterando uma camiseta para deixá-la mais aberta. Também está incorporando um código que passou a fazer parte da imagem contemporânea do running.

(DIY Running Shirt - Foto: r/runningfashion)

No encontro entre tecnologia e DIY, a ventilação acaba funcionando como uma espécie de linguagem. Nike ACG, SATISFY e outras marcas de performance exploram o ar, a abertura e a exposição do tecido como parte do design, enquanto os corredores reinterpretam essa estética de maneira espontânea. O resultado é um cenário em que a roupa de corrida não precisa esconder sua função, ela pode mostrar como respira.

A estética do running está cada vez mais interessada naquilo que acontece entre o corpo e o tecido. E, nesse movimento, os furos deixaram de ser apenas furos. Viraram uma maneira de desenhar a roupa.