Behind The Game: NIGO

Behind The Game: NIGO

Por Matheus Castro

Aproximadamente em 2014, um dos mais notórios nomes da moda japonesa anunciou sua retirada da marca que fundou em 1993. Uma marca a qual se tornou sinônimo de streetwear e da cultura de seu tempo. 

Quando NIGO revelou que estava de saída da A Bathing Ape após duas décadas no comando, foi o marco para o fim de uma era. De maneira tipicamente visual e irreverente, o designer postou uma imagem no Instagram mostrando sua versão de brinquedo sendo baixada para um túmulo desenhada por KAWS no corpo de Bart Simpson. Era quase tudo o que você esperaria do homem. 

 

 

Em diferentes maneiras, esta imagem foi simbólica. Um resumo perfeito da maneira pela qual o estilo iconoclasta e irreverente que ele e seus colaboradores haviam desbravado estava desmoronando à sua volta à medida que os gostos dos consumidores mudavam. O mundo da moda havia se tornado mais sério. Designers como Raf Simons e Rick Owens entravam na linguagem do consumidor de streetwear ansioso por provar um nível de gosto mais exigente. Enquanto isso, a marca de NIGO, extravagante, cheia de estampas e cor perdeu seu brilho.

Foi uma partida bastante discreta, que coincidiu com o 20º aniversário da BAPE. Um final inadequado, talvez, para um homem o qual tinha tido tanto destaque na cena. Um final que pode não contar a história completa do que a A Bathing Ape foi (e para alguns ainda é). Logo, para contar tal história, você precisa olhar os dois lados: o início e o final da épica carreira de NIGO.

Apesar da partida sem muita cerimônia, para muitas pessoas, a saída de NIGO da BAPE já havia sido colocada em questão há um tempo. Após ser comprada pelo conglomerado de varejo chinês, I.T, dois anos antes, já haviam sussurros de descontentamento. Além disso, a marca estava em crise financeira.

De acordo com o The Wall Street Journala Nowhere Co. (empresa que controla a BAPE e é propriedade de NIGO), sofreu grandes perdas nos anos anteriores a compra. "No exercício fiscal encerrado em 31 de agosto de 2010, seu prejuízo líquido foi de 119 milhões de ienes, um pouco melhor do que um prejuízo de 267,4 milhões de ienes do ano anterior. A empresa tinha um passivo total de 1,03 bilhão de ienes no ano encerrado em 31 de agosto.”

Como parte do acordo para salvar a BAPE, NIGO concordou em ficar como diretor criativo. No entanto, sua influência decrescente, ou talvez interesse decrescente, estava aparente. Enquanto o negócio crescia, abrir mais lojas e vender mais produtos, tornava-se cada vez mais a antítese do que originalmente a A Bathing Ape estava programada para ser: algo para poucos, não para muitos.

Mesmo o cachê cultural da BAPE originalmente construído sobre um ideal de exclusividade, essa iteração moderna era para todos, de todas as formas imagináveis. Tudo, desde canecas de café até bodys de bebês, estavam estampado com o motivo icônico do Macaco, e o produto era vendido para quem quisesse comprá-lo.

Esse plano de negócios, no entanto, estava apenas acelerando uma tendência de expansão excessiva que já havia atormentado o império de NIGO nos anos pós-boom de Pharrell. A Bathing Ape - originalmente chamada de A Bathing Ape in Lukewarm Water- tornara-se decididamente morna, produzindo colisão atrás de colisão. Enquanto isso, seu notório shark hoodie - que já foi o produto mais desejável e difícil de obter - tornou-se pouco mais do que uma compra simbólica disponível para qualquer pessoa disposta a pagar. Para muitos, essa não era a BAPE pela qual haviam se apaixonado.

Para as pessoas que acompanhavam a marca desde os primórdios, eles lembram uma época na qual realmente faziam parte de algo. O produto era sinônimo de qualidade, os pontos de referência eram sólidos e era ilusório o suficiente para os consumidores da marca se sentirem muitos mais do que meros consumidores. Eles eram parte de uma gangue camuflada dos pés a cabeça a qual abrangia o mundo todo, mas ainda assim permanecia fielmente underground

Quando perguntado o que ele aprendeu sobre moda com NIGO, Craig Ford (um dos primeiros grandes distribuidores da BAPE no Reino Unido) simplesmente respondeu "tudo" - um sentimento ecoado por inúmeros músicos, artistas e influenciadores culturais ao longo dos anos.

Mas como o filho de um fabricante de metal e uma enfermeira vivendo na província de Gunma - Japão atingiu tamanha altura?

NIGO, ou se você preferir, Tomoaki Nagao, era devoto e aficionado por Hip-Hop. Isso serviu como porta de entrada na cena a qual iria dominar anos depois. Aos 16 anos ele se aventurava regularmente em Tóquio para comprar discos em uma loja chamada "Cisco". Além disso, naquele mesmo ano, conseguiu economizar o suficiente para comprar seu primeiro toca-discos. Apaixonado pelo Hip-Hop e pelo estilo do gênero, o aspirante a DJ começou a se vestir como os ícones das capas dos discos adquiridos: Public Enemy, LL Cool J e The Beastie Boys tornaram-se seus grandes heróis.

Após o ensino médio, NIGO trocou Gunma pelas luzes neon e bares noturnos de Tóquio ao ser aceito na faculdade Bunka Fashion College. Entretanto, mesmo comparecendo às aulas, o real ensino de NIGO estava nas boates da capital, onde se encontrou fazendo contatos que iriam impulsioná-lo no mundo da moda mais do que qualquer aula de corte jamais faria. Mais tarde, comentou que aprendeu "zero" com a Bunka e a coisa mais valiosa adquirida disso foi ter conhecido Jun Takahashi (a qual fundaria a UNDERCOVER).

Foi nessa época que o jovem Nagao fez amizade com o chamado "Godfather of Harajuku" (Poderoso Chefão de Harajuku), Hiroshi Fujiwara. A propósito, foi resultado direto da amizade íntima entre os dois que ele ganhou seu apelido infame. "NIGO" se traduz como "número dois" - referência impressionante ao semelhante visual da dupla e ao eventual papel de assistente que ele representaria para Fujiwara. 

Com a ajuda de Hiroshi Fujiwara, NIGO e Takahashi continuariam fundando a Nowhere em 1993 - uma boutique de moda de nicho que vendia uma seleção de marcas internacionais de streetwear, tênis da adidas e Nike, bem como seus próprios produtos. Foi nessa época que A Bathing Ape foi concebida em conjunto com o amigo e colaborador frequente do NIGO, SK8THING 

Embora o nome original da marca (A Bathing Ape in Lukewarm Water) certamente tenha sido um pouco longo, ele incorporou referências que acabariam por definir a produção da marca nos próximos anos. O primeiro, traçou paralelos com O Planeta dos Macacos, com a iconografia símia rapidamente se tornando marca visual da label. Este último, no entanto, referencia um coloquialismo japonês que zombava da opulência do Japão obcecado pelo consumo no pós-guerra - paralelo irônico para uma marca a qual incorporaria esse estereótipo em muitos aspectos. 

No que viria a ser uma jogada incrivelmente perspicaz, a demanda pela BAPE foi baseada em uma política deliberada de escassez, com a produção rodando e apenas cumprindo cerca de 10% da demanda. Essa tática se tornaria sua marca registrada, aumentando em muito a sua conveniência entre os conhecedores.  

Mesmo assim, em 1998, NIGO optou por reduzir ainda mais as operações, ciente de que marcas de sua natureza podem perder rapidamente seu apelo se voarem muito perto do sol. Em entrevista de 2008 à Complex Mag, comentou: “Costumávamos vender para cerca de 40 lojas diferentes no Japão ... Mas por volta de 1998, decidi voltar para a nossa única loja em Tóquio. Não demorou muito para que as vendas de uma loja fossem tão boas quanto quando vendemos em todo o país. Isso me fez perceber que isso era algo maior do que eu imaginava. ” 

Essa percepção se transformou em um mantra de hiperexclusividade e varejo vertical, tornando a BAPE meticulosamente difícil de encontrar. Ao mesmo tempo, importantes influenciadores culturais como o Notorious B.I.G. e James Lavelle, chefe da Mo'Wax Records, estavam promovendo a marca na mídia, aumentando seu apelo inimaginavelmente. 

Os anos seguintes foram um dos mais lucrativos e bem-sucedidos para NIGO. Ao passo que artistas como Pharrell começaram a moldar a cara do Hip-Hop na era pós-milênio, a exposição da BAPE crescia cada vez mais. Não demorou muito para que houvesse uma parceria entre os dois. A dupla lançou as marcas Billionaire Boys Club e Ice Cream, mas também viu Pharrell assumir o papel de embaixador não oficial da BAPE. Kanye WestLil Wayne e muitos outros rappers seguiriam, posicionando a marca no auge do estilo hip-hop.  

Ao mesmo tempo, o próprio NIGO começou a produzir faixas para o grupo de rap japonês Teriyaki Boyz. Mais tarde, ele disse à revista Inventory Magazine que "começar a ouvir as pessoas referenciarem a marca nas letras de rap marcou uma mudança real". Com os lucros da empresa subindo, foi durante esse período que o gosto pelo consumo de NIGO realmente ganhou vida própria. 

Como um indivíduo de fala mansa que sempre optou por se comunicar em sentido estritamente visual, não era segredo que o designer tinha um ponto fraco por colecionar. Sejam obras famosas de pop art como KAWS, Futura e até Warhol, ou brinquedos raros (sua coleção Star Wars sozinha foi avaliada em US $ 250.000), NIGO era um verdadeiro culto obsessivo. E, à medida que seu sucesso crescia, seus hábitos de compras também aumentavam.

Em uma de suas casas em Tóquio, o designer teve uma famosa sala inteiramente dedicada ao seu amor pela Gucci, na qual tudo, desde o papel de parede até os móveis e ornamentos, eram feitos pela grife italiana. "Ninguém tem mais nada além desse cara, ele é um conhecedor de todas as grandes coisas", disse Pharrell à revista Vibe em 2006.  

No mesmo artigo, NIGO estimou que sua marca estava arrecadando cerca de US $ 45 milhões por ano. Muito desse valor pode ser atribuído ao seu icônico Bapesta - uma versão divertida do Air Force One da Nike, que viu apaixonados por tênis se esforçando para colocar as mãos em um par em lojas como Flight Club em Nova York, muito antes do termo "sneakerhead" se tornar parte do dicionário da cultura.  

Essa era a BAPE em seu pico absoluto: suas lojas estavam frequentemente sem estoque, assim como a demanda por produtos; havia um café; havia uma estação de TV; um patrocínio oficial de luta japonesa; houve até um segmento estranho de entrevista com o apresentador de talk show britânico Jonathan Ross. No ritmo em que estava indo, a marca parecia invencível. Mas, é claro, nada no mundo é. 

À medida que os gostos do milênio mudavam e a ridícula espiral de expansão e consumo começou a desmoronar, tornou-se evidente que a sorte de NIGO havia mudado. De fato, quando confrontado com o buraco negro no coração das finanças da empresa, ele foi forçado a vender 90% da BAPE por apenas 230 milhões de ienes japoneses, cerca de US $ 2,8 milhões. Foi então que o final deste capítulo na vida de NIGO ficou claro para todos verem. Dois anos depois, ele havia deixado a marca por completo.

Hoje, NIGO se mantém ocupado com sua marca mais refinada, a Human Made, a qual se concentra em reproduções vintage de alta qualidade. Ele também trabalha com a poderosa japonesa Uniqlo como chefe de sua linha de camisetas UT e tem relacionamento esporádico de colaboração com a adidas. No entanto, embora todos esses projetos tenham mérito por si só, nada tocou a energia fervente que uma vez caracterizou a BAPE  em seus anos de glória. Em muitos aspectos, é um desejo nostálgico por esses anos que ainda impulsiona grande parte do apelo pessoal de NIGO. 

Ele foi o maior empresário? talvez não - algo que ele próprio admitiu no Women's Wear Daily em 2011: "Eu tinha um forte pressentimento de que queria que a marca sobrevivesse", disse ele. “O principal era pensar no que fazer sobre isso. Passei 20 anos construindo, então seria uma pena ver isso desaparecer. ”  

Há algo admirável nesse idealismo. E, pelo visto, NIGO conseguiu o que queria. A BAPE ainda está viva até hoje, e é a própria crença no que NIGO significou para tantas pessoas em todo o mundo que talvez esse seja o seu legado mais duradouro. Independente de sua opinião sobre as roupas. Assim como Shawn Stüssy antes dele, NIGO deu à luz um gigante da indústria streetwear, apenas para descobrir que ele havia adquirido vida própria. Ainda assim, onde quer que a vida leve a marca no futuro, uma coisa é certa: ela sempre será lembrada à luz de um homem - "número dois".