Os Ensinamentos De Christian Dior Sobre A Pandemia

Os Ensinamentos De Christian Dior Sobre A Pandemia

Por Matheus Castro

Não há dúvidas de que o cenário atual de pandemia no qual estamos vivendo vem impactando a vida de milhares de pessoas ao redor do mundo. Comércio, empresas, organizações lutam pela sobrevivência e tentam a cada dia, assim como nós, se reinventar, se adaptar e esperar pelo melhor. A indústria da moda vive um de seus piores momentos da história. São dezenas de lojas fechando as portas, desfiles sendo cancelados, coleções interrompidas no meio do processo de criação, vendas indo por água abaixo. 

A busca por respostas sobre o futuro sempre foi fruto da natureza humana desde os primórdios: "De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?". Com a pandemia da Covid-19 não é diferente. O mundo daqui para frente é uma grande incerteza para todos nós. Mas podemos tentar imaginar. É o que nos inspira o documentário "Christian Dior: designer of dreams", onde podemos buscar alguma resposta, através da história da moda, sobre a retomada do trabalho, vendas e coleções após um dos episódios mais difíceis da história da humanidade.

O contexto era de segunda Guerra Mundial (1939-1945), o setor da alta-costura foi extremamente prejudicado pela guerra e ocupação nazista. Diversas maisons, ateliês e fábricas foram fechadas pela vontade explícita nazista de transferir a capital da alta-costura de Paris para outra cidade, como Berlim. Como consequência, houve mudanças evidentes na moda, a elegância havia sido perdida. Ao invés disso, roupas de formas geométricas, ângulos retos desenhados sobre retângulos e quadrados foram adotados. Um estilo totalmente masculino e militar.

Silhuetas Da Década de 40 (Fonte: Fashion History Timeline)

Monsieur Dior, que serviu ao exército francês na época, decidiu que era hora de criar sua própria maison, em 1945, e deixar de ser apenas um contratado de outros grandes ateliês. No ano seguinte, abriu a Christian Dior, grife a qual até os dias de hoje é sinônimo de elegância e sofisticação. Em 1947, grande parte da França, reduzida a escombros, ainda não havia sido reconstruída, a economia nacional estava deprimida e muitas pessoas continuavam sobrevivendo sob racionamento até 1949. O glamour e a atividade intelectual que caracterizaram a vida parisiense nos inebriantes dias pré-guerra, da década de 1920 a início da década de 1930, praticamente desapareceram. Nova York, gradualmente passou a ser vista como a nova capital cultural do mundo ocidental.  

Christian Dior Em Frente À Sua Primeira Loja (Fonte: ABC)

Até que em janeiro de 1947, Christian Dior desenhou sua coleção de estreia a qual mudaria para sempre a história da moda: The New Look. Em sua autobiografia, Dior posteriormente descreveu o projeto da seguinte maneira: "Em dezembro de 1946, como resultado da guerra e dos uniformes, as mulheres ainda pareciam e se vestiam como soldados", escreveu ele. "Mas eu projetei roupas para mulheres que pareciam flores, com ombros arredondados, bustos femininos cheios e cinturas feitas à mão por cima de enormes saias abertas."

A ideia essencial era fazer com que as pessoas pudessem voltar a sonhar, a idealizar uma fantasia e enxergar a beleza no mundo novamente. No centro desta coleção, está o "Bar Suit"batizado em homenagem ao bar do Hotel Plaza Athénée, a poucos passos da sede da Dior na Avenue Montaigne, um dos bairros mais elegantes da cidade até hoje. 

Com uma jaqueta branca feita de seda shantung, o traje também incluía saia preta que caía abaixo do joelho, feita de lã plissada. A razão pela qual o Bar Suit se tornou um símbolo tão poderoso através de suas cinturas apertadas e contrastes fortes, era o fato de ser exatamente o oposto do estilo monocromático e masculino a favor da época.

Bar Suit (Fonte: Vogue)

Mesmo com todo o caos que o mundo vive no momento, é importante estarmos sempre esperando pelo melhor. Ao rever a história de Christian Dior, podemos pensar que, quando tudo isso passar, poderemos viver um dos momentos mais criativos e conscientes da história tanto na moda quanto em diversas outras esferas da sociedade. Claro que as perdas são inevitáveis, mas se reinventar é preciso e o processo para um mundo novo já começou.